9.10.2019—2.2.2020
SESC 24 DE MAIO,
SÃO PAULO PT EN

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ITINERÂNCIA

CURADORIA

A Itinerância da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades imaginadas traz ao interior de São Paulo um recorte representativo do conjunto de obras que ocupou, nos últimos meses, o Sesc 24 de Maio. A nova designação explicita nossa proximidade com as bienais internacionais que, ao dar visibilidade a propostas de regiões menos representadas e devolver a arte à sua dimensão crítica, vêm desenhando um panorama mais diverso e potente da produção global. A cargo dos curadores convidados Gabriel Bogossian, Luisa Duarte e Miguel Angel López, a Bienal propunha uma reflexão sobre as formas de organização que, baseadas em afetos, afinidades e identidades compartilhadas, resistem às margens dos Estados-nação.

Como é usual em nossas itinerâncias, integram esta exposição todas as obras que foram premiadas pelo júri da 21ª Bienal, pela primeira vez formado exclusivamente por mulheres. No intuito de adensar esse conjunto, que surpreende por ser uma amostra particularmente coesa dos temas presentes no evento – apesar de criada sem essa intenção e sem essa diretriz –, reunimos a ele outros trabalhos também marcantes, que reforçam e amarram núcleos temáticos centrais. Além de duas das obras comissionadas pela Bienal, estes incluem exemplos de usos de linguagens artísticas que, como a fotografia, tinham uma presença mais relevante na exposição original do que a premiação pode sugerir.

Esta experiência tem o sentido de ensaiar para a itinerância uma orientação propriamente curatorial, comprometida em ampliar o acesso ao núcleo duro das práticas e do pensamento desvelados por cada Bienal. Assim, as questões urgentes que mobilizam os artistas da 21ª edição, selecionados entre mais de 2 mil, oriundos de 105 países, desenham-se com clareza aqui – nas narrativas que atestam como LGBTQs, negros, indígenas, mulheres e demais grupos minorizados aprofundam práticas comunitárias para defender direitos arduamente conquistados frente à onda de obscurantismo que, nas regiões de passado colonial e além, ameaça liberdades e valores fundamentais.

Escolha da maior parte dos artistas premiados e comissionados pela Bienal, o vídeo reafirma sua potência e amplitude. GRIN, de Roney Freitas e Isael Maxakali, recorre a imagens – reais – da Guarda Rural Indígena, instituição correcional criada pela ditadura brasileira, para lembrar a bizarra relação do Estado com suas nações originárias. Em Schmitt, You and Me [Schmitt, você e eu], o libanês Omar Mismar encena um diálogo sobre política em uma loja de armas nos Estados Unidos, com referências que conectam era Trump e Alemanha nazista.

I Went Away and Forgot You. A While Ago I Remembered. I Remembered I’d Forgotten You. I Was Dreaming [Fui embora e esqueci você. Há um tempo lembrei. Lembrei que tinha esquecido você. Eu estava sonhando] registra a performance em que a artista saudita Dana Awartani constrói e destrói um tapete de areia em padrão geométrico islâmico. Nikki’s Here [Nikki está aqui], da vietnamita Thanh Hoang, ficcionaliza o choque de culturas no cotidiano de uma imigrante em Nova York; em Off-White Tulips [Tulipas esbranquiçadas], o turco Aykan Safoğlu dialoga com o escritor James Baldwin (1924-1987), luminar do movimento negro e homossexual que viveu em Istambul nos anos 1960.

A perspectiva pós-colonial está em E’ville, de Nelson Makengo, que retoma, no cenário de um centro esportivo abandonado, uma carta de Patrice Lumumba, líder da resistência à dominação belga, assassinado em 1961. E também em What Is Left of the Sugar Cubes? [O que resta dos cubos de açúcar?], de Thierry Oussou, do Benin, ensaio sobre memória e patrimônio construído a partir do Museu Memorial Cemitério dos Pretos Novos, no Rio de Janeiro, e comissionado pela Bienal.

Numa nota mais militante, Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados, do Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas, reúne memórias de ocupações urbanas realizadas em Minas Gerais desde 2012 pelo grupo, que defende o coletivo como norte urbanístico. Em Laboratorio de invención social (o posibles formas de construcción colectiva) [Laboratório de invención social (ou possiveis formas de construción coletiva)], da argentina Gabriela Golder, testemunhos de operários de cooperativas balizam uma discussão sobre precarização do trabalho e efeitos do liberalismo.

A condição de mulher negra em um país forjado pela escravidão, inseparável da obra de Rosana Paulino, está em As avós, comissionado pela Bienal e construído sobre imagens de escravizadas do século 18. O debate sobre racismo ecoa também nas pinturas de grande formato da série #JáBasta, de No Martins, que foi pichador e grafiteiro, além de aluno de Paulino.

Na animação Hidirtina / Sisters [Irmãs], Ezra Wube recria uma narrativa mitológica do norte da Etiópia que ilustra o embate entre a vida em harmonia com a natureza, simbolizada por sete irmãs imortais, porém invisíveis, e a ganância da dita civilização, corporificada em um caçador.

Duas séries fotográficas e uma ação comunitária fecham a exposição. As imagens de Djingareiber, do mailnês Tiécoura N’Daou, mostram o mutirão popular que ajudou a reconstruir a mesquita de barro do título, em Tombuctu, após um ataque de grupos insurgentes. Em Cette maison n’est pas à vendre à vendre [Esta casa não está à venda à venda], o congolês Georges Senga fotografa imóveis à venda em Katuba, no Congo, e na Praia Grande, no Brasil, revelando o melancólico produto de disputas familiares e especulação imobiliária.

Imagens de Makwatcha, por fim, resulta de um workshop de estamparia realizado em um vilarejo no Congo por Mônica Nador, criadora do ateliê comunitário Jardim Miriam Arte Clube, na periferia de São Paulo. Contrapondo imagens de casas pintadas segundo tradição local e dos padrões desenvolvidos na oficina, a instalação exemplifica uma síntese, afinal, possível: o momento em que a imaginação comunitária se serve da prática da arte e resgata, para ela, um lugar comum e cotidiano.

SOLANGE OLIVEIRA FARKAS

diretora artística da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil

 

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