9.10.2019—2.2.2020
SESC 24 DE MAIO,
SÃO PAULO PT EN

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Rosana Paulino

Rosana Paulino

1967 | São Paulo-SP, Brasil | Vive em São Paulo-SP

SOBRE | DEPOIMENTO

Conhecida pela pesquisa ligada a questões sociais, étnicas e de gênero, seus trabalhos têm como foco principal a posição da mulher negra na sociedade brasileira e os diversos tipos de violência sofridos por essa população, decorrentes do racismo e das marcas deixadas pela escravidão. Artista visual, pesquisadora e educadora, é doutora em artes visuais pela USP, com especialização em gravura pelo London Print Studio. Foi bolsista da Fundação Ford e da Capes, e em 2014, foi agraciada com a bolsa para residência no Bellagio Center, da Fundação Rockefeller, em Bellagio, Itália. Participou das individuais Atlântico Vermelho, na Galeria Superfície (2016), Mulheres Negras – Obscure beauté du Brésil, no Espace Fort Grifoon, Besançon (2014), Tecido Social, na Galeria Virgílio (2010); e das coletivas South­South: Let Me Begin Again, Cidade do Cabo, África do Sul (2017), La Corteza del Alma, Madri (2016) e Territórios: Artistas Afrodescendentes no acervo da Pinacoteca, São Paulo (2015), entre outras


A ideia para a instalação Das avós, apresentada na 21ª Bienal, é uma ideia antiga que não realizei por falta de recursos. Pensei, principalmente, no fato de quem seriam estas mulheres e que uma poderia ser minha bisavó, talvez. Considerando-as como matriarcas, como avós, refleti sobre o carinho que gostaria de dar para essas ancestrais – ninar, oferecer uma comida boa... enfim, cuidar dessas mulheres. O projeto nasceu basicamente dessa ideia de afetividade, e pensando também em como foi, e é, importante para a população negra a questão da ancestralidade, achei que vê-las como parentas distantes seria um belo trabalho de cura pessoal e coletiva.

As relações entre memória individual e memória coletiva se misturam em toda minha obra, e operam também neste trabalho. A memória individual está na possibilidade de ter convivido com duas avós e, portanto, pensar em dividir com uma bisavó “imaginária” essa experiência. Ao mesmo tempo, ao tratar das imagens que estão em domínio público, adentro o terreno da coletividade. Na realidade, essas duas memórias, pessoais e coletivas, são fundamentais na construção da personalidade. Ninguém é fruto só de uma ou de outra. O que eu faço é trazer a memória coletiva que, em alguns momentos, pode ser pensada como ancestralidade para o centro da obra; algo pouco explorado na produção contemporânea brasileira, pensando também na produção de mulheres negras. 

Quando comecei a produzir, a discussão sobre gênero e raça no Brasil era rara. A aceitação desses discursos ainda não é total, mas sem dúvida está crescendo, o que é fundamental em um país em que quase 55% da população se reconhece como não branca. Porém, no que tange essa discussão dentro da atual conjuntura do país, a resposta a esse posicionamento é o endurecimento de uma ideia de universalismo, de um discurso de que somos “todos humanos” e que aplaina as diferenças, mantendo as desigualdades. Era de se esperar essa onda conservadora. Mas tenho certeza de que sobreviveremos. Quem chegou nos porões dos navios e, ainda assim, assentou uma cultura não vai parar agora.

Das avós

Das avós

2019 | Videoinstalação

 

O vínculo entre o trabalho e a condição de mulher negra é crucial na produção de Rosana Paulino. Quem seriam suas ancestrais em um país marcado pela escravidão? Nas projeções em looping, uma jovem moça trava contato com imagens de mulheres negras do Brasil colonial, numa relação de cuidado com as representantes da ancestralidade. Paulino alinha essas personagens à sua própria história de vida, reconstruindo os laços perdidos por meio de um resgate simbólico das inúmeras memórias usurpadas.

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